O Papel da Complexidade Econômica no Processo de Desenvolvimento: Teoria e Evidência Empírica

José Luis Oreiro*

Luciano Ferreira Gabriel**

O desenvolvimento econômico é um processo pelo qual a acumulação de capital e a incorporação sistemática do progresso técnico permitem o aumento persistente da produtividade do trabalho e do padrão de vida da população (Bresser-Pereira, Oreiro e Marconi, 2014, p. 12). O aumento da produtividade do trabalho torna possível a elevação persistente dos salários reais, uma vez superado o assim chamado “ponto de Lewis”; ou seja, uma vez que a mão-de-obra empregada nos setores tradicionais ou de subsistência (via de regra, a agricultura) tenha sido totalmente transferida para os setores modernos ou capitalistas (Lewis, 1954). Nesse momento se esgota a oferta ilimitada de mão-de-obra, característica da Fase I do capitalismo (Kaldor, 1980), fazendo com que o contínuo aumento da demanda de trabalho, decorrente da expansão do nível de atividade econômica, permita a elevação gradual dos salários reais a um ritmo aproximadamente igual ao crescimento da produtividade do trabalho. O crescimento dos salários reais, por seu turno, é que viabiliza o aumento do padrão de vida da população.

A acumulação de capital e o progresso técnico são as fontes fundamentais de crescimento da produtividade do trabalho e do padrão de vida da população. Com efeito, o progresso técnico permite, por um lado, um aumento da eficiência na produção, ou seja, que os mesmos bens e serviços sejam produzidos com o uso de uma quantidade menor de insumos, em especial o trabalho; por outro lado, o progresso técnico leva ao desenvolvimento de produtos e serviços cada vez mais sofisticados ou complexos, isto é, produtos que incorporam não só uma quantidade maior, como também mais diversificada, de conhecimento técnico e científico[1]. Esses produtos mais sofisticados ou complexos são produzidos por trabalhadores altamente qualificados[2] em empresas que operam na fronteira tecnológica ou próxima a ela; razão pela qual tais produtos possuem maior valor adicionado por unidade de trabalho empregada. Dessa forma, o progresso técnico decorre não apenas do avanço do “estado das artes”, mas principalmente por intermédio de um processo de mudança estrutural, no qual recursos produtivos e trabalhadores são transferidos das atividades com menor valor adicionado por trabalhador empregado (setores menos sofisticados ou complexos) para atividades com maior valor adicionado por trabalhador empregado (setores mais sofisticados ou complexos).

A acumulação de capital é um importante elemento no processo de difusão do conhecimento técnico e científico para toda a economia; pois uma parte considerável desse conhecimento se acha incorporado em máquinas e equipamentos, sendo impossível separar o aumento da produtividade do trabalho que decorre do avanço do “estado das artes” daquele que é decorrência de uma maior “mecanização” da força de trabalho (Kaldor, 1957). Como enfatizado por Hidalgo (2015, p.152), o capital físico nada mais é do que conhecimento técnico e cientifico incorporado em máquinas e equipamentos.

As evidências empíricas disponíveis apontam para a existência de uma correlação positiva entre o índice de complexidade econômica[3], elaborado por Hidalgo (2015), e o nível de renda per-capita de uma amostra de países[4]. A complexidade econômica, por seu turno, parece estar positivamente associada com a participação da indústria de transformação no PIB. Com efeito, na Figura 1 abaixo podemos constatar a existência de uma relação positiva entre a participação da indústria de transformação no PIB e o índice de complexidade econômica para uma amostra de 60 países em desenvolvimento no período 1990-2011.

Figura 1 – Índice de Complexidade Econômica x Participação da Indústria de Transformação no PIB, Países Selecionados, 1990-2011.

oreiro 1

Fonte: MIT (2017) e WDI (2017). Eixo X – VA da indústria manufatureira. Países em Desenvolvimento (upper middle income+middle income+low income – de acordo com classificação WDI).

Complexidade Econômica e Renda Per-Capita: uma avaliação empírica

O nível de complexidade das economias calculado por Hausmann e Hidalgo et al. (2011) é mensurado em termos da composição da produção de suas estruturas produtivas levando-se em conta a diversidade e ubiquidade de produtos. Quanto maior a diversidade de produtos que necessitem de know how, tecnologias e conhecimento e menor a ubiquidade destes produtos (não baseados exclusivamente na escassez, como o nióbio, por exemplo), maior tende a ser o nível de complexidade econômica (eci).

O gráfico abaixo relaciona o nível de complexidade econômica (eci) com o nível de renda per capita (em termos reais) para 22 anos (período de 1990-2011) e 85 economias (desenvolvidas e em desenvolvimento)[5]. Novamente (1), pode-se perceber uma clara associação entre o nível de complexidade econômica e o nível de renda per capita da amostra de países. Entretanto, é possível avançarmos na apresentação desta relação de forma a explorarmos com mais robustez a influência do nível de complexidade econômica sobre a renda per capita desta amostra de países.

Figura 2 – Complexidade Econômica e PIB per capita (1990-2011)

oreiro 2

                Fonte: Elaboração dos autores.

Uma forma de testarmos se a relação expressa na Figura 2 se mantém para países em diferentes estágios de desenvolvimento econômico pode ser feita dividindo-se a amostra por níveis de renda. Neste caso, para verificarmos isso, utilizamos regressões quantílicas para efeitos fixos em dados em painel [cf. Quantile Regression for Panel Data de Powell (2014)]. A estimação por regressão quantílica permite considerar a heterogeneidade não observada e efeitos de covariáveis heterogêneas, enquanto os dados em painel permitem a inclusão de efeitos fixos para controlar covariáveis não observadas. Por meio desse processo de estimação é possível identificar se os resultados anteriores se mantêm para os países de menor renda e renda média (quantis 10, 25 e 40 e 55, ou seja, do quantil 10, o qual representa a amostra dos países com os 10% menores produtos per capitas até algo pouco acima da mediana de renda da nossa amostra, ou seja, quatil 55).

Em linhas gerais, por meio desse método permite-se detectar se ocorrem mudanças de sinal entre os quantis, ou seja, se o nível de complexidade econômica tem influência distinta sobre o nível de renda per capita dos países quando considerados os diferentes quantis (por faixas de renda da amostra de 85 países). Além disso, permite-se verificar se a magnitude desse impacto é diferente, ou seja, de maneira crescente ou decrescente em relação aos demais quantis. Além disso, ela permite utilizar uma abordagem não paramétrica, onde se calcula uma distribuição empírica – a real distribuição da estatística da amostra – que é indicada como opção corretiva quando se verifica a não normalidade dos resíduos. Por fim, mas não menos importante, o uso de tal modelo torna os resultados mais robustos a existência de outliers, uma vez que se observa a resposta de cada variável por quantil.

Iremos agora avaliar a hipótese de que o nível de renda per capita pode ser positivamente influenciado pelo nível de complexidade econômica, controlando-se para uma próxi do nível do hiato tecnológico e para uma medida do estoque de capital humano para as 85 economias supra referidas para os quantis 10, 25, 40 e 55.  Os resultados são reportados na Tabela 1 abaixo.

Tabela 1 – Resultados das regressões quantílicas para uma amostra de 85 países (1990-2011).

pibpc, em ln  
  Quantis
  10 25 40 55
Eci 0.0795

(1.43)

0.204***

(20.95)

0.365***

(27.94)

0.719***

(381.10)

gaptec (1) -0.0196***     6.88) -0.0197***

(-83.90)

-0.0132***

(-95.95)

-0.0129***

(-118.88)

hk  (2) 0.0146***

(6.19)

0.0212***

(86.80)

0.0230***

(57.38)

0.0173***

(38.28)

Nota: t statistics in parentheses * p<0.05, ** p<0.01, *** p<0.001 (85 painéis). Método de estimação robusto. (1) Segue metodologia de Verspagen (1993); os EUA é o líder tecnológico e (2) Percentual da população de cada país no ensino superior independente da idade.

À exceção do primeiro quantil, pode-se observar que para todos os demais quantis considerados, o nível de complexidade econômica afeta a renda per capita de forma positiva e estatisticamente significativa. Mais importante ainda, essa relação se dá de forma crescente, ou seja, na medida em que os países saem de um nível de renda per capita mais baixo para patamares superiores (ou seja, ficando mais ricos), eci se torna mais importante. Portanto, o nível de sofisticação da estrutura produtiva mensurado por eci importa de forma que o nível de renda dos países aumente ao longo do tempo.

Conforme pode ser observado, a proxy utilizada para capital humano afeta de maneira positiva e estatisticamente significativa o nível de renda per capita. Entretanto, o seu impacto é menor do que o da variável eci. O mesmo pode ser dito com relação ao hiato tecnológico. Hausmann e Hidalgo et al. (2011, p.33) utilizaram outras medidas de capital humano, para diferentes períodos e países e a importância (superior) do nível de complexidade econômica para o aumento da renda per capita se manteve.

Temos clareza que há um conjunto mais amplo de variáveis que pode afetar o nível de renda per capita das economias, como àquelas associadas às variáveis institucionais, estabilidade política e econômica, qualidade regulatória, diferentes níveis de aplicação (ou vigência) do Estado do Direito (rule of law), dentre outras, os quais os próprios Hausmann e Hidalgo et al. (2011, p.37) utilizam em suas estimações.  O ponto fundamental que queremos chamar atenção neste artigo é que a estrutura produtiva importa para o desenvolvimento econômico.

Referências

 

BRESSER-PEREIRA, L.L; OREIRO, J.L; MARCONI, N. (2014). Developmental Macroeconomics: new developmentalism as a growth strategy. Routledge: Londres.

GALA, P. (2017). Complexidade Econômica: uma nova perspectiva para entender a antiga questão da Riqueza das Nações.  Contraponto: Rio de Janeiro.

HAUSMANN, Ricardo, HIDALGO, César A., BUSTOS, Sebastián,  COSCIA, Michele, CHUNG, Sarah, JIMENEZ, Juan, SIMÕES, Alexander, YILDIRIM, Muhammed A. The atlas of Economic Complexity – Mapping paths to prosperity. Puritan Press. 2011

Hidalgo, C. (2015). Why Information Grows: the evolution of order, from atoms to economics. Basic Books: Nova Iorque.

Kaldor, N. (1980). Essays on Economic Stability and Growth. Duckworth: Londres.

LEWIS, W.A. (1954). “Economic Development with Unlimited Supplies of Labour”. The Manchester School, Vol. 22, N.2.

POWELL, D. Did the economic stimulus payments of 2008 reduce labor supply. RAND Corporation: Labor & Population, 2014. (RAND Labor & Population Working Paper 710-3).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

* Professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília, Pesquisador Nível IB do CNPq, Pesquisador Associado do Centro de Estudos do Novo-Desenvolvimentismo da FGV-SP e Líder do Grupo de Pesquisa “Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento”. E-mail: joreiro@unb.br.

** Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal de Viçosa e Pesquisador do Grupo “Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento”. E-mail: lucianofg@gmail.com.

[1]Segundo Hidalgo (2015, cap.10), o conhecimento técnico e científico está embutido nas pessoas (capital humano), nas máquinas e equipamentos (capital físico), na capacidade das pessoas em se conectarem e assim trocar informações (capital social). Dessa forma, aquilo que uma economia produz e exporta revela a sofisticação ou complexidade das suas capacitações produtivas.

[2]A qualificação da força de trabalho não deve ser reduzida apenas ao grau de escolaridade dos trabalhadores, medida pelo número médio de anos de estudo, mas também o grau de adequação da força de trabalho às necessidades particulares das empresas. Nas palavras de Porter “Contrary to conventional wisdom, simply having a general work force that is high school or even college educated represents no competitive advantage in modern international competition. To support competitive advantage a factor must be highly specialized to an industry´s particular needs – a scientific institute specialized in optics, a pool of venture capital to fund software companied (…)“(Apud Hidalgo, 2015, p.148).

[3] Sobre a metodologia de construção do índice de complexidade econômica ver Gala (2017).

[4] Nas próximas páginas iremos avançar na análise da correlação entre complexidade econômica e nível de renda per-capita por intermédio de uma regressão quantílica para uma amostra de 85 economias (desenvolvidas e em desenvolvimento) para um período de 22 anos (1990-2011). No exercício a ser executado, a influência da complexidade econômica sobre o nível de renda per-capita será controlada para as variações do estoque de capital humano e do hiato tecnológico. Os resultados encontrados apontam para uma relação positiva e estatisticamente significativa entre o índice de complexidade econômica e o nível de renda per-capita, mesmo após se controlar para essas variáveis, indicando com isso que não é possível descartar a influência da estrutura produtiva sobre o nível de desenvolvimento econômico dessa amostra de países.

[5] Vejam essa mesma relação para 2014 em: https://jlcoreiro.wordpress.com/2017/09/28/o-mito-de-que-a-estrutura-produtiva-nao-importa-uma-analise-dos-dados/

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O debate econômico não precisa de espantalhos (Blog do IBRE, 05/10\02017)

05/10/2017

O principal trabalho de um economista é buscar a dimensão correta das questões econômicas envolvidas em um determinado problema. Uma contribuição recente dentro desse espírito foi realizada por Bráulio Borges do IBRE que fez um exercício para avaliar qual o efeito das circunstâncias externas à política econômica na recessão de 2014-16. Evidentemente, esse é um exercício complexo e sujeito a uma série controvérsias, mas ao mesmo tempo é capaz de produzir um debate valoroso para a política econômica do país.

A partir de exercícios desse tipo é possível colocar em uma perspectiva correta um dos maiores espantalhos criados na política econômica nacional. A primeira vez que esse espantalho surgiu, foi a partir de uma interpretação da situação econômica, realizada no final de 2012, pelo então Secretário de Política Econômica do Governo Dilma I, que avaliava estar por vir um período de baixas taxas de juros, taxa de câmbio competitiva e uma consolidação fiscal amigável ao investimento.

Com o tempo o que era uma mera avaliação que se mostrou equivocada sobre o comportamento da economia ganhou vida própria. Seu conceito foi ampliado, incorporando outros temas e seu horizonte temporal foi remexido, voltando para antes de 2008. Em resposta a Bráulio, Samuel Pessoa, em coautoria com um dublê de desenho animado, apontou alguns limites no exercício realizado.

Esse debate provavelmente vai continuar por mais tempo e com outros atores. Mas queria chamar atenção para a questão que me parece substantiva e que não foi colocada ainda: quais são os limites ideais da atuação da política econômica? Quais devem ser as regras do jogo? Esses limites devem ser alterados se o país estiver em uma recessão? Se sim, até que ponto?

Questões como essa abundam no dia a dia da política econômica tanto no episódio em debate quanto no presente momento. São exemplos bastante atuais: Quais os limites para a edição de programas de refinanciamento tributário? Deveria haver limites sobre a política de swaps cambiais? É necessário prestar contas dos seus impactos para a sociedade? É adequado alterar temporariamente a regra de ouro? Até que ponto ela atingiu seus objetivos?

Infelizmente o debate caminhou em uma outra direção que serviu para caricaturar algumas alternativas, como vimos no caso do FGTS. No final, ao invés de ampliar as opções da política econômica para solucionar a crise, o debate público acabou por reduzir as alternativas em discussão, o que não me parece adequado.

A caricatura da política econômica levou a outro problema identificado por Nelson Barbosa que, ao analisar as alternativas de consolidação fiscal no Brasil por meio do aumento de receitas, apontou haver amnésia seletiva por parte de analistas que têm defendido algumas propostas que já haviam sido feitas no passado recente quando foram ignoradas. Um bom exemplo ocorreu com a meritória discussão sobre tributação de lucros e dividendos encaminhada pelo Governo Dilma já no final do seu 2º mandato por meio do PL 5.205/2016.

Em resposta, Samuel Pessoa, afirmou não haver amnésia seletiva, mas sim uma discordância sobre o sequenciamento do ajuste fiscal. Defendeu que deveria haver redução das despesas primeiro para depois realizar o ajuste restante pelas receitas. Por fim, Samuel convoca os economistas por uma agenda de consenso apartidária.

Confesso que fiquei intrigado com a resposta de Samuel. Não por discordar, muito pelo contrário, mas por saber que foi exatamente isso o que o Governo Dilma tentou em seu segundo mandato. A Tabela a seguir apresenta a compilação das medidas de redução de despesa e revisão de desonerações que foram implementadas em 2015.

Fonte: Pires, (2017).

Depois desse ajuste, o governo anunciou que iria iniciar os estudos para uma ampla reforma da previdência, que começou a ser debatida no início de 2016. A proposta feita pelo governo atual se assemelha em vários pontos à que estava em discussão na época. Por que propor uma coalisão de consenso apenas agora, depois do ápice da polarização que vivemos em 2015, e não naquele momento? As razões apontadas não me pareceram convincentes em razão dos fatos aqui expostos.

De qualquer forma,  defender algo considerado correto deve ser uma questão de bom senso e honestidade intelectual, e não uma questão partidária, preceito que as pessoas que conheço seguem. Será importante que na eleição no próximo ano, quando as pessoas que participam do debate público terão um papel importante a desempenhar, possamos seguir nessa linha em qualquer contexto e sem o uso de espantalhos.

Pires, M. (2017). “Política fiscal e ciclos econômicos: Teoria e a Experiência Recente”. IBRE e Ed. Elsevier.

A ESTRATÉGIA DE DILMA FOI DESENVOLVIMENTISTA ? (Revista Época, Edição 951, 05 de Setembro de 2016)

Por Nelson Marconi *

É consensual que o governo Dilma errou na condução da política econômica. Também é razoável afirmar que ela herdou uma série de desequilíbrios de seus antecessores, mas não é correto afirmar que seu fracasso se deve à adoção de uma estratégia desenvolvimentista; não é possível identificar a maioria de suas escolhas nessa escola de pensamento. Para explicar esse argumento, entender onde ela errou, e apontar a atual repetição de equívocos, precisamos voltar um pouco mais no tempo.

O governo Lula deu sequência ao ajuste fiscal iniciado por FHC e manteve superávits primários elevados até 2008 (no patamar de 2,5%), antes da crise financeira internacional. Nesse período, a taxa de juros real (descontada a inflação) permaneceu elevadíssima, no intervalo entre 6 e 12%, mesmo com a dívida pública diminuindo (como proporção do PIB). Por consequência nossa moeda se valorizou muito e a inflação caiu. Como o mundo estava vivenciando um boom de crescimento, a situação de nossas contas externas não foi prejudicada pela valorização, e mesmo a indústria nacional apresentou bons resultados. O país parecia retomar a rota dos investimentos, mas escondia desequilíbrios macroeconômicos importantes, principalmente uma taxa de juros muito elevada e uma moeda valorizada, irreconhecíveis pela maioria das pessoas em função dos efeitos positivos da bonança externa.

Mas veio a crise, e com ela o cenário muda. Dilma recebe o governo com a nossa moeda no nível mais valorizado desde 1995 e os ventos externos favoráveis já tinham se dissipado. Depois da crise de 2008/9, nossas exportações de bens industriais caíram – a redução da demanda mundial e a moeda valorizada levaram as empresas transnacionais a diminuírem as exportações oriundas do Brasil – e as importações aumentaram drasticamente, atendendo parcela relevante do crescimento da demanda interna. A distância entre o volume de vendas no mercado interno e a produção industrial ampliou-se. Começa o longo período de estagnação da indústria, que hoje se encontra no patamar observado em meados de 2004. Medidas para reverter esse cenário faziam-se urgentes.

Portanto, Dilma tem razão quando argumenta que o cenário externo a atrapalhou; porém, as medidas que adotou a partir daí foram desencontradas, diversa delas equivocadas, e não conseguiram reverter o cenário bem menos amigável que aquele com o qual seu antecessor, Lula, conviveu. Primeiro, seu governo buscou conter a alta da inflação, que vinha pressionada principalmente pela evolução dos preços dos serviços (que não são negociados com o exterior e portanto são  imunes ao impacto que a valorização da moeda poderia exercer no sentido de inibir seus reajustes) com o represamento de preços de serviços públicos. Um grave erro, que além de piorar a situação financeira das empresas  e inibir o investimento nestes setores, contribuiu para pressionar a inflação em 2015. Já tínhamos cometido esse erro em outras oportunidades no passado. Mas por outro lado Dilma também sabia, corretamente, que reduzir a taxa real de juros e desvalorizar nossa moeda era uma condição essencial para retomar o crescimento da indústria e do conjunto da economia. A tarefa não era fácil, e iria ocorrer em um cenário em que a inflação já se encontrava ligeiramente acima da meta. Uma mudança de sinais tão ambiciosa como essa – alteração de patamar de juros e câmbio – demandava um governo forte, com capacidade para controlar movimentos especulativos (tanto que taxou o mercado futuro de operações cambiais, corretamente) e frear o aumento dos preços via controle da expansão da demanda no país, de forma a elevar sua credibilidade. Daí a necessidade, naquele momento, de reduzir os gastos públicos. Só que o governo fez o contrário – expandiu-os porque acreditava que conseguiria, com essa medida, se contrapor aos efeitos da redução da demanda mundial sobre nossa economia. Consequentemente a inflação retomou a trajetória de alta e o Bacen voltou atrás em relação à trajetória de queda da taxa de juros.

O movimento mais importante que o governo tinha adotado, em anos, teve que ser abortado porque não foi realizada a redução das despesas públicas indispensável  naquele momento. Como a desvalorização da moeda não ocorreu na magnitude necessária, já que a taxa de juros voltou a se elevar, lá veio a equipe econômica com mais uma medida imediatista: a concessão de subsídios e desonerações fiscais para compensar e reduzir custos. A escolha dos setores beneficiados levou em consideração os impactos deles nas cadeias produtivas, isso é, sobre a produção dos demais setores, mas possivelmente também foi fruto de pressões políticas. E todos sabiam que essas medidas eram temporárias, portanto terminaram não estimulando  decisões de investimento produtivo. Para piorar, o suposto estímulo à demanda oriundo dos incentivos, desonerações e expansão do crédito foi atendido, em boa parte, por importações, em função da valorização da moeda, o que também desestimula a produção de bens no país.

Foi uma sucessão de erros que foram se agravando à medida que o governo elevava seus gastos para tentar recuperar a economia e reeleger Dilma. O efeito era contrário ao esperado pela equipe econômica, já que a parcela melhor informada da sociedade  previu os feitos negativos dessa expansão desenfreada das despesas públicas.

Para completar, Dilma tenta reverter as expectativas negativas e recuperar a confiança do mercado convidando para o Ministério da Fazenda uma pessoa com pouquíssima afinidade ideológica e econômica. Não poderia dar certo; o ministro Levy implementou um profundo corte dos investimentos públicos em 35% (já descontada a inflação) em um ano, ao invés de atacar os gastos correntes (com as operações corriqueiras do governo e pessoal, por exemplo). É o tipo de ajuste fiscal que não pode ser bem sucedido; o desaquecimento se aprofunda, a arrecadação cai e, junto com a alta da taxa de juros que foi praticada, pressionou as despesas do governo e aumentou mais ainda a dívida pública. Nelson Barbosa tentou melhorar a situação, inclusive propondo um teto para a evolução das despesas go governo, mas não teve tempo e apoio político para implementar suas propostas.

Podemos sintetizar o impacto dessa sucessão de erros sobre o setor privado através do comportamento da margem de lucro das empresas, principalmente das produtoras de manufaturados. O gráfico abaixo mostra, para a indústria de transformação, extrativa mineral e o seu conjunto, a queda da relação entre o lucro oriundo das vendas e a receita bruta das mesmas vendas durante o governo Dilma. Parcela relevante da insatisfação com seu governo provem desse fato, principalmente do impacto, como já afirmado, sobre a indústria de transformação. Menores taxas de lucro resultam em menos investimentos, emprego e inovação. Esse é um dos maiores erros de sua gestão: não se pode desconsiderar a importância da taxa de lucro para o funcionamento adequado do sistema econômico.

Gráfico grafico-nelson

Sua política foi novo desenvolvimentista ? Não pode ser assim chamada. Os novo-desenvolvimentistas defendem o investimento como mola mestra do crescimento, e para tal deve-se preservar a taxa de lucro, que no caso da indústria de transformação é muito suscetível às oscilações cambiais . Como se observa no gráfico, os setores primários (no caso, os extrativos) apresentam margens de lucro bem maiores que na indústria de transformação por serem beneficiados pela abundância de recursos naturais. Os produtores da indústria de transformação não conseguem, ao contrário dos produtores de primários, absorver em seus custos os impactos de uma moeda valorizada.

Também entendemos que a taxa de juros real deve ser reduzida, as contas do governo ajustadas, com superávit nos gastos correntes para o governo poder elevar seus investimentos…as contas externas devem ser equilibradas e a política industrial, voltada à inovação com cobranças de resultados…. e os salários devem crescer em linha com a produtividade. Por fim, é fundamental a existência de uma estratégia nacional de desenvolvimento.

Ainda que Dilma tenha tentado implementar uma parte dessas medidas, não é possível dizer que seu governo tenha seguido esse receituário. As decisões imediatistas e desencontradas não seguiram a lógica aqui descrita. Infelizmente, o governo recém-empossado está enveredando pelo mesmo binômio juros altos – moeda valorizada em, por enquanto, têm expandido os gastos públicos em atividades não essenciais. Parece que também não aprendeu com os erros passados. Vamos esperar que atente para este aspecto e reverta esse quadro.

* Professor da Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas e presidente da Associação Keynesiana Brasileira. O artigo reflete apenas as opiniões do autor.

PROGRAMAÇÃO DO 13º FÓRUM DE ECONOMIA DA FGV

PARA MAIS INFORMAÇÕES, ENVIE E-MAIL PARA: CND@FGV.BR

A ESCOLA DE ECONOMIA DE SÃO PAULO DA FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS – EESP/FGV, EM PARCERIA COM A FIESP, O IEDI e o DIEESE CONVIDAM A PARTICIPAR DO

QUE SERÁ REALIZADO NOS DIAS 12 e 13 de setembro de 2016, NO SALÃO NOBRE DA

FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS

COM O TEMA:

SEMIESTAGNAÇÃO DESDE 1981. POR QUE?

Haverá 4 painéis, com os respectivos subtemas:

 

1) Taxa de juros e semiestagnação;

2) Taxa de câmbio e semiestagnação;

3) Razões políticas da semiestagnação;

4) Comparação entre o Leste Asiático e o Brasil desde 1980.

E a palestra dos Ministros

                                          Henrique Meirelles (Ministro da Fazenda); e

                                                     José Serra (Relações Exteriores)

 

Abaixo a lista completa de todos os palestrantes confirmados ou convidados para o 13º FÓRUM DE ECONOMIA da Fundação Getúlio Vargas

 

Luiz Carlos Bresser-Pereira – Professor Titular Emérito da FGV, Ex Ministro da Fazenda, da Administração Federal e Reforma do Estado e Ciência e Tecnologia, e Coordenador Geral do Fórum de Economia

Carlos Ivan Simonsen Leal – Presidente da Fundação Getúlio Vargas

Yoshiaki Nakano – Diretor da Escola de Economia de São Paulo da FGV, ex-secretário da Fazenda da Gestão Mario Covas

Nelson Marconi – Professor da Escola de Economia de São Paulo da FGV e Presidente da Associação Keynesiana Brasileira

– Henrique Meirelles – Ministro da Fazenda do Brasil, e ex-Presidente do Banco Central

Jorge Gerdau – Presidente do Conselho do Grupo Gerdau

– Antônio Delfim Netto – Professor Emérito da FEA, Ex-Ministro, e Presidente do Conselho Superior de Economia da FIESP

– João Guilherme Sabino Ometto – 2º Vice-Presidente da FIESP, Presidente do Conselho de Administração do Grupo São Martinho e fundador do Conselho Superior do Agronegócio da FIESP.

– Benjamin Steinbruch – Vice-Presidente da FIESP e Presidente do Conselho de Administração da CSN

– Pedro Wongtschowski – Presidente do IEDI e Membro do Conselho do Grupo Ultra

– Carlos Buch Pastoriza – Presidente da Associação brasileira de máquinas e equipamentos

– Jeong Gwan Lee – Embaixador da Coreia do Sul no Brasil

– Paulo Rabelo de Castro – Presidente do IBGE

– Marco Antônio Bologna – Presidente do Grupo Fator

– Joaquim Falcão – Diretor da Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getulio Vargas

– Oscar Vilhena Vieira – Diretor da Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getulio Vargas

– Sérgio Amaral – Embaixador, ex ministro do MDIC e Presidente do Conselho Empresarial Brasil China

– Nilson Teixeira – Economista Chefe do Crédit Suisse

Nelson Barbosa – Ex-Ministro da Fazenda e do Planejamento

– Marcio Holland – Professor da EESP/FGV e ex Secretario de Política Econômica do Ministério da Fazenda

 José Francisco de Lima Gonçalves  Economista-Chefe do Banco Fator

 Mario Bernardini  Diretor de Competitividade da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ)

– André Nassif – Professor da UFF e economista do BNDES

– Celso Rocha de Barros – Analista do Banco Central do Brasil

– Cícero Araújo Professor e Chefe do Departamento de Ciência Política da USP

– André Singer – Professor da USP

– Armando Boito – Professor da Unicamp

– Mariano Laplane – Professor da Unicamp

– Fabiana D’Atri – Economista Senior do Bradesco

– Paulo Gala – Professor da EESP/FGV e estrategista do Banco Fator

 Francisco Eduardo Pires de Souza – Assessor da Presidência do BNDES

 José Luis Oreiro  Professor da UFRJ e Ex-Presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB)

 Vera Thorstensen  Professora da EESP-FGV e ex-Presidente do Comitê de Regras de Origens da Organização Mundial do Comércio (OMC).

 Edgar Pereira  Professor do Instituto de Economia da Unicamp

 Clemente Ganz Lúcio  Diretor do DIEESE

 

                          PARA MAIS INFORMAÇÕES, ENVIE E-MAIL PARA: CND@FGV.BR

 

VEJA AQUI A PROGRAMAÇÃO COMPLETA DO 13º FÓRUM DE ECONOMIA DA FGV

 

COMITÊ ORGANIZADOR

Luiz Carlos Bresser-Pereira

Yoshiaki Nakano

Nelson Marconi

Lucas José Dib

Ajuste pode ser feito sem cortar conquistas sociais importantes (Folha de São Paulo, 30/08/2015)

Interessante artigo de Felipe Salto e Nelson Marconi publicado na Folha de São Paulo de hoje contestando a análise de Samuel Pessoa, Mansueto Almeida e Marcos Lisboa sobre o ajuste fiscal estrutural. Vejam em http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2015/08/1674874-ajuste-pode-ser-feito-sem-cortar-conquistas-sociais-importantes.shtml?cmpid=compfb.

 

 

O Estranho mas inevitável ajuste (Valor Econômico, 10-04-2015)

O país não cresce, o desemprego ressurge e na prática a recessão já está instalada na economia. Não obstante, o governo não tem alternativa senão engajar-se em um processo de ajuste fiscal – algo que se faz quando há excesso, não quando há falta de demanda. Como explicar esse quadro estranho?

O baixo crescimento não é novo. Embora poucos se deem conta disto, a economia brasileira está semiestagnada há muito tempo. Desde 1980 o crescimento da renda per capita tem sido, em média, de 0,9% ao ano contra 4,1% entre 1950 e 1980. Se excluirmos dois períodos atípicos – a forte retração ocorrida nos anos 1980 causada pela política de crescimento com poupança externa e o período de boom de commodities (2004-2010) -, a taxa de crescimento foi quase a mesma: 0,8% ao ano.

O principal fato novo que explica o baixo crescimento desde 1990-91 é a armadilha dos juros altos e o câmbio sobreapreciado, que reduz a taxa de lucro esperada (quando não a torna simplesmente negativa) e inviabiliza os investimentos. O real sobreapreciado, por sua vez, decorre da desmontagem do competente mecanismo de neutralização da doença holandesa que existiu entre 1967 e 1990 – o “modelo Delfim Netto” baseado em altas tarifas de importação e elevados subsídios para a exportação de bens manufaturados. Nesse mecanismo metade era protecionismo, metade neutralização da doença holandesa, mas ninguém percebeu isso. Sem essa neutralização, as empresas industriais brasileiras passaram a ter uma grave desvantagem competitiva, e a desindustrialização se desencadeou.

Os objetivos do ajuste são quatro: controlar a inflação desencadeada pela depreciação recente do real, sancionar a depreciação do real já em curso, reverter o processo de aumento do endividamento público e recuperar a confiança no governo e no Brasil.

A perda de confiança ocorreu nos dois últimos anos do primeiro mandato. No segundo semestre de 2012, apoiado na baixa da taxa de juros e na depreciação do real que lograra promover, o governo anunciou que havia sido bem sucedido em mudar a “matriz macroeconômica” e que o país estava agora pronto para crescer. Esse foi um primeiro erro. A matriz macroeconômica realmente mudara um pouco, mas não o suficiente para tirar o país da armadilha de longo prazo em que está metido.

Dilma recebera do governo anterior uma taxa de câmbio brutalmente apreciada (R$ 2 por dólar, a preços de hoje). Por isso a depreciação real de cerca de 20% alcançada nos dois primeiros anos do governo não bastou para que as empresas brasileiras competentes se tornassem competitivas, suas expectativas de lucro mudassem e elas voltassem a investir em expansão de capacidade. Somem-se a isto dois fatos – os salários reais continuaram a aumentar e a produtividade da indústria continuou a baixar porque a taxa de câmbio apreciada não justificava investimentos no setor – e compreenderemos porque a economia permanecia semiestagnada.

Entretanto, a desvalorização de 2012 teve um preço. Como ela não foi acompanhada do necessário ajuste fiscal, a inflação subiu. Em face desse segundo erro e do crescimento sempre baixo, a ortodoxia liberal partiu para o ataque, ridicularizando o “pibinho” e apontando para o aumento da inflação. E foi bem-sucedida, porque os empresários industriais deixaram de apoiar o governo. Sem alternativa, o governo Dilma recuou e passou a aumentar os juros.

Mas tentou uma última cartada, cometendo um terceiro erro. Recorreu a uma política industrial caríssima, baseada em desonerações de impostos. Pensou que assim compensaria a sobreapreciação cambial, a taxa de lucro voltaria a ser satisfatória para as empresas industriais, estas voltariam a investir e o país voltaria a crescer. Mas política industrial nunca serviu para compensar desequilíbrio macroeconômico. Somada à forte desaceleração econômica de 2014 e à consequente diminuição da arrecadação, essa política contribuiu para que o superávit primário caísse cerca de 2% e se tornasse negativo.

Em 2013, diante desses erros, dos maus resultados em termos de crescimento e inflação, e do julgamento do mensalão, o governo perdeu o apoio nas elites econômicas. O pacto desenvolvimentista que Lula tentara montar associando empresários industriais e trabalhadores colapsou. Não eram mais apenas os rentistas e o setor financeiro que desaprovavam o governo; os empresários industriais também se mostravam cada vez mais insatisfeitos, o que se constituía em um argumento adicional para não investirem.

Ao mesmo tempo, o déficit em conta-corrente (a chamada “poupança externa”) não parava de aumentar, alcançando 4,4% em 2014, o que agravou a crise de confiança e a estendeu para o sistema financeiro internacional, tornando possível uma crise de balanço de pagamentos neste ano, não obstante as altas reservas.

Diante desse quadro, a prioridade que a presidente estabeleceu para 2015 foi recuperar a confiança perdida, que neste momento só pode ser alcançada através de um decidido ajuste fiscal. Mas seria esse ajuste necessário? Contribuiria para reduzir a inflação e assim sancionar uma depreciação real? Pouco, dada a insuficiência de demanda hoje existente. Por que, então, o ajuste? Primeiro, porque política contracíclica só é efetiva quando o país parte de uma situação de equilíbrio fiscal – o que não é o caso. Segundo, porque, combinada com a depreciação, é a forma de controlar o déficit em conta-corrente. E, terceiro, porque a sociedade brasileira está convencida da importância do equilíbrio fiscal – o que torna o ajuste condição para o restabelecimento da confiança em um quadro político e macroeconômico muito negativo para a presidente.

O ano de 2015 será difícil, como tem acentuado o ministro Joaquim Levy. Mas a crise econômica não é grave e pode estar superada até o final do ano. Para isto, entretanto, é preciso que o governo e as elites políticas superem a atual crise política, porque esta, sim, é grave. É uma crise de legitimidade que inviabiliza o bom governo.

Por que a produtividade não aumentou ? (Valor Econômico, 03-02-2015)

Por Paulo Gala

A resposta é simples. A grande maioria dos empregos gerados nos últimos anos foi em setores com baixa produtividade intrínseca: construção civil, serviços não sofisticados em geral (lojas, restaurantes, cabelereiros, serviços médicos, call centers, telecom, etc…), serviços de transporte (motoristas de ônibus, caminhões, pilotos de avião), entre outros. As comparações internacionais mostram que o grande diferencial de produtividade entre países está justamente no setor de bens transacionáveis, especialmente nos empregos industriais, longe dos chamados serviços não sofisticados. É bastante intuitivo entender que a produtividade de um garçom, de um motorista, de um piloto de avião ou de um vendedor de loja é praticamente igual na Europa, EUA, Ásia e Brasil. Até mesmo na construção civil, mesmo com auxílio de máquinas mais sofisticadas, a produtividade entre trabalhadores dos diversos países não é muito distinta. A altíssima produtividade dos países ricos ocorre então em outros setores que não esses, com destaque para os serviços sofisticados e indústria. A produtividade é em grande medida setor-específica e não trabalhador-específica. São ricos os países que cultivam seus setores de bens transacionáveis e de serviços sofisticados (EUA, Japão, Alemanha, nórdicos, sudeste asiático, etc).

O boom de crédito, commodities e consumo observado no Brasil nos últimos anos estimulou justamente os setores com baixos ganhos potencias de produtividade e desestimulou os setores potencialmente ricos em economias de escala e retornos crescentes: as manufaturas. Houve desindustrialização e reprimarização da pauta exportadora com avanço das commodities. Por isso nossa produtividade estagnou, se é que não cairá no futuro. Até mesmo os serviços sofisticados (marketing, financeiro, jurídico, consultoria, etc) estão regredindo, pois são altamente dependentes das manufaturas ou da agroindústria. O agronegócio per se também precisa se sofisticar para gerar produtividade. O processamento de commodities, o maquinário e mecanização da produção agrícola contribuem obviamente para o aumento de produtividade dos trabalhadores. Mas a geração de empregos aqui tem sido e continuará sendo muito baixa. Ou seja, de maneira resumida, o Brasil trilhou nos últimos anos um caminho de regressão tecnológica e diminuição da sofisticação de seu tecido produtivo, que acabou por resultar em importante estagnação da produtividade geral da economia. O setor de serviços como um todo passou de 60% do PIB para 70% do PIB nos últimos 10 anos.

A partir dessa perspectiva a dinâmica de produtividade de uma economia depende de sua configuração setorial. Não se trata então de educar mais ou até mesmo capacitar mais os trabalhadores; se trata de estimular e desenvolver os setores corretos. O padrão de especialização produtiva de uma economia é chave para entender o processo de aumento de produtividade. Ser produtivo significa dominar tecnologias avançadas de produção e criar capacidades e competências locais nos setores corretos. Produzir castanhas de caju ou chips de computador, carros ou sapatos, bananas ou computadores faz diferença. Ou seja, o processo de aumento de produtividade de uma economia não é setor-neutro (depende da composição agricultura, serviços e indústria do PIB) e depende do tipo de produto que um país é capaz de produzir. A produtividade da economia não depende dos indivíduos, é algo sistêmico. Trabalhadores inseridos em setores tecnologicamente sofisticados serão produtivos devido às características intrínsecas do setor e não a dos trabalhadores.

Como mostra o importante estudo da UnB, “Produtividade no Setor de Serviços” no Brasil, o setor concentra hoje 74% da força de trabalho no país e foi responsável por 83 em cada 100 novos postos formais de trabalho gerados nos últimos anos. Ou seja, junto com a destruição dos empregos industriais no país, surgiu uma ampla oferta de vagas nos setores de serviços, especialmente de baixa sofisticação, graças ao boom imobiliário e de consumo (varejo, shopping centers, etc…). O resultado geral desse movimento somado ao pleno emprego no mercado de trabalho causou enorme aumento de salários, sem contrapartida de melhora na produtividade. O custo unitário de produção aumentou muito no país, pressionando a lucratividade da indústria, desestimulando produção e novos investimentos. Não bastasse tudo isso, o câmbio nominal (e real) se apreciou durante vários anos, agravando ainda mais nossa posição de competitividade externa. O resultado final desse processo já é conhecido por todos: grande déficit em conta corrente, queda de investimentos e estagnação do PIB. Sem o retorno da indústria brasileira não haverá recuperação da produtividade.

A forte subida de salários por aqui sem o acompanhamento do aumento de produtividade provocou importante alta dos custos relativos do trabalho. As margens de lucro caíram. O crédito e consumo acompanharam essa onda. Nos anos de 2005 a 2011 tanto investimento agregado quanto consumo agregado subiam graças a expansão de salários. O aumento de preços de commodities também ajudou, constituindo pilar fundamental do modelo CCC (crédito, commodities e consumo). Entretanto esse modelo se esgotou. Os preços das commodities estão cedendo, o crédito se expande a taxas bem menores e o consumo perdeu o vigor. Sobraram os altos custos trabalhistas em reais e em dólares. Como resolver esse problema nos próximos anos? Dado que os salários nominais não vão cair, só existem dois caminhos: desvalorização cambial e aumento de produtividade. A desvalorização já está ocorrendo pela via de mercado. O aumento de produtividade poderá vir pelo aumento do investimento em infraestrutura e pela sofisticação tecnológica do tecido produtivo brasileiro: novos mercados e novos produtos, especialmente de natureza industrial. Num mundo ultra competitivo como o atual não será tarefa fácil. Talvez com uma onda de pesados investimentos em infraestrutura e câmbio bem mais desvalorizado seja possível. Sem esse caminho o crescimento deve ficar estagnado por aqui.

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